Enquanto estão em tratamento contra a covid-19, pacientes do Hospital Regional da Asa Norte (Hran) recebem um alento com apresentação musical, ao som de violão. Na UTI e enfermaria Covid, o fisioterapeuta Fernando Beserra e a equipe de psicologia, visitam os leitos, cantam músicas e fazem videochamadas para os familiares.

A psicóloga, Lígia Costa Nova, que faz parte da equipe multiprofissional do Hran, explica que em pacientes internados em UTI é muito comum acontecer uma condição chamada delirium . Trata-se de um distúrbio de consciência e cognição, que tem como característica a diminuição da atenção e alterações secundárias tais como percepção, memória, orientação e raciocínio. Os fatores de risco incluem: idade avançada, privação de sono, imobilidade, desidratação, uso de sedativos.

Normalmente, pacientes Covid-19 ficam muitos dias, até meses internados, e uma distração como essa contribui muito para a recuperação do paciente | Foto: Geovana Albuquerque / Agência Saúde

A internação em UTI tem inúmeros fatores que interferem no estado clínico do paciente, como perda da orientação do dia e da noite, perda de realização das atividades de vida diária e laborais, perda do contato com seus familiares, condições que podem agravar ainda mais o quadro de delirium.

Semanalmente, nas tardes de quarta-feira, o profissional leva música e alegria ao leito de cada paciente. A equipe da UTI tem cerca de 23 profissionais por plantão e quando o fisioterapeuta entra tocando seu violão os demais profissionais se juntam para engrossar o coro

Esse estado de confusão mental afeta grande parte dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva. Justamente por isso existe a necessidade de prevenir a doença ajudando o paciente a se distrair e se conectar com movimentos ao seu redor. A música pode ajudar nesse processo.

“Antes da pandemia já tentávamos buscar soluções para isso. Sempre que possível levávamos o paciente para passear no jardim (muitas vezes no próprio leito, acoplado ao ventilador mecânico), fazíamos as visitas estendidas e tentávamos cuidar do paciente e da família dele” afirma a psicóloga Lígia Costa Nova. A profissional destaca que com a pandemia esse processo ficou mais limitado. “Foi então que o Fernando (fisioterapeuta do Hran) teve essa ideia estimulado por um paciente que era um cantor”.

Fernando Beserra é fisioterapeuta na UTI do Hran há 15 anos e trabalha com a reabilitação de sequelas causadas pela covid-19. Entre um atendimento e outro, o fisioterapeuta observou as preferências dos pacientes até que um pediu que ele tocasse. Foi então que a ideia tomou forma. Semanalmente, nas tardes de quarta-feira, o profissional leva música e alegria ao leito de cada paciente. A equipe da UTI tem cerca de 23 profissionais por plantão e quando o fisioterapeuta entra tocando seu violão os demais profissionais se juntam para engrossar o coro.

Normalmente, pacientes Covid-19 ficam muitos dias, até meses internados, e uma distração como essa contribui muito para a recuperação do paciente. O paciente Ricardo Henrique Lopes, de 39 anos, esteve internado na UTI desde fevereiro, e a rotina semanal das visitas com música, ajudou muito em sua recuperação. “A música nos alegra pois eles cantam o que a gente quer cantar. Gosto muito deles, são extrovertidos e legais”, relata o paciente que teve alta dia 28 após 60 dias de internação.

Tratamento alternativo

“Percebo que a música traz sensações de alívio. Alguns mínimos movimentos nos mostra o efeito das músicas, um sorriso, um sinal de “ok”, tentar bater palmas ao final das músicas, uma lágrima que corre no canto do olho“Fernando Beserra, fisioterapeuta e cantor

Há um mês e meio, a equipe aposta nesse tratamento alternativo como forma de aliviar a tensão e o medo dos pacientes. “Percebo que a música traz sensações de alívio. Alguns mínimos movimentos nos mostra o efeito das músicas, um sorriso, um sinal de “ok”, tentar bater palmas ao final das músicas, uma lágrima que corre no canto do olho. Sem contar aqueles que acompanham tentando cantar com mímica facial ou até mesmo cantando”, observa Fernando Beserra.

Os pacientes são muito receptivos às visitas musicais. Alguns que não conseguem falar ou mesmo se movimentar livremente, esboçam gestos de alegria e gratidão. Esses encontros são acompanhados pela equipe de psicologia do hospital que relata melhora aparente e até redução nas medicações administradas.

“Não posso dizer que haja uma relação causal direta na melhora do paciente, mas podemos sim estar prevenindo que ele desenvolva essa condição de delirium. Potencialmente pode ajudar também como intervenção não farmacológica em pacientes que estão fazendo delirium. Temos visto despertares bem complicados em pacientes com Covid-19, em uma incidência maior do que observávamos antes”, explica a psicóloga Lígia Costa Nova.

O ambiente de UTI em si, é um ambiente um tanto quanto inóspito. É um lugar ruidoso, que funciona 24 horas e no qual o paciente fica completamente afastado das suas referências e dependente para tudo.

“O ambiente parece frio e mórbido, mas por ser um ambiente fechado, conhecemos mais nossos colegas de trabalho e conseguimos transformar a ideia errada de ambiente de “quase morte” para ambiente de recuperação de vida”, destaca Fernando Beserra.

Conectar o paciente com aquilo que lhe é familiar, dentre outras medidas, pode ajudar na prevenção de outras doenças. A equipe explica que aos poucos todos foram aderindo, de forma espontânea, que não houve um planejamento formal para isso.

“É muito legal essa união da equipe. Às vezes o plantão está corrido, aí vem um e toca, volta para o trabalho, aí vem outro que pega o lugar dele. As técnicas já vêm e cobram ‘vem aqui cantar para o meu paciente também’, ‘olha, o sr fulano gosta de tal música’. O médico vem e toca o violão também”, finaliza Ligia. No fim, é uma troca, todos saem ganhando, equipe e paciente.

* Com informações da Secretaria de Saúde

 



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